O Punctum: um Subterfúgio do Invisível
- 31 de out. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 16 de mar.
O punctum é o elemento que transforma a visão de uma imagem em uma experiência sensorial e emocional. No seu livro "A Câmara Clara", o filósofo Roland Barthes cunhou este termo para descrever aquilo que nos fura, nos toca de forma inexplicável quando olhamos para uma fotografia. O punctum transita nas bordas do indizível, e, evasivo, vai além da técnica ou composição. Penetra nosso íntimo e perfura as camadas da nossa humanidade.
Ao olhar para uma fotografia, o punctum pode se fazer sentir. Ele é sutil, quase imperceptível, e ainda assim profundo. Essa potência nos envolve, reconfigura o olhar e infunde à imagem uma carga emocional que a torna difícil de esquecer.
A experiência do punctum é pessoal e subjetiva. O que fura a alma de um pode não ter o mesmo efeito em outro. O olhar de uma criança, o detalhe de uma textura, a forma como a luz incide sobre um objeto; essas nuances podem tornar-se o ponto em que a fotografia se fixa em nós. Ele nos chama para além da superfície, em direção àquilo que uma imagem pode despertar.
Mas encontrar o punctum em uma fotografia é um ato de acuidade e intuição. Não é algo que se planeje ou force, pois trata-se de um elemento que ocorre mais no reino da percepção e da reação emocional do observador do que na intenção deliberada do fotógrafo. Enquanto um fotógrafo pode aspirar a criar uma obra que tenha o potencial para evocar um punctum, a eficácia dessa intenção só pode ser confirmada pela experiência individual de quem vê a imagem.
Quando o fotógrafo tenta fabricar deliberadamente aquilo que deveria ferir o olhar, a imagem pode resvalar para o clichê ou para uma emoção demasiado conduzida. O impacto pode existir, mas o punctum não se deixa convocar com esse grau de cálculo, porque ele irrompe no espaço incerto entre a imagem e aquele que a recebe.
A presença ou a ausência de punctum pode influir na maneira como uma fotografia permanece em nós. Certas imagens regressam, insistem, voltam sem aviso e continuam a nos afetar muito depois do primeiro encontro. Não porque tragam em si uma força universalmente reconhecível, mas porque tocaram alguma zona sensível da memória, da percepção ou da experiência.
No punctum, a fotografia excede a articulação visível e alcança uma zona em que o olhar se torna experiência. Algo na imagem se desprende da superfície e continua a agir numa região menos nítida, onde o olhar já não se satisfaz com o que reconhece. O punctum emerge dessa fissura mínima entre o que a fotografia mostra e aquilo que nela pulsa como presença sensível.
O punctum pode ser aquilo que impede a fotografia de se esgotar no que mostra. A imagem deixa então de ser superfície e passa a agir como vestígio de uma experiência que não se extingue.
Escrito por Angela Rosana, saiba mais sobre mim aqui.
Os créditos aos fotógrafos constam nas imagens, com links para os respectivos perfis no Instagram. Conheça mais o trabalho de cada um!
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Publicação no Instagram em novembro 2023










